Há 16 meses foi detetado o primeiro caso de Covid19 em Portugal. A este propósito lembro algumas reflexões sobre as implicações da pandemia no exercício da psicoterapia.

Psicoterapeuta e paciente/cliente encontram-se pela primeira vez, no processo psicoterapêutico, em simultâneo, a experienciar um contexto inusitado, impensável e inquieto. O impacto do coronavírus exigiu que aceitássemos o inusitado, enquanto situação rara que surgiu nas nossas vidas, o impensável, porque incrível, e a inquietação porque viríamos a viver uma condição simultaneamente incerta e imprevisível.

Agora, à pergunta, já foste vacinado? segue-se a mais comum, que vacina levaste?

 

Confrontamo-nos com imagens diárias de um mundo, de um país ou de uma comunidade que parecem ter uma arma apontada á cabeça. Foi esta a imagem que o meu imaginário construiu enquanto assistia à medição da temperatura. Estados de emergência, planos de contingência, quarentenas, recolhas obrigatórias, boletins diários de saúde, ventiladores e um sem número de reportagens hospitalares em inúmeros países. A acrescer a isto, e a pesar-me a alma, a morte de milhares de pessoas.

 

 

 

A SIMBOLOGIA DE UMA PANDEMIA

Esta vivência subjetiva e intersubjetiva está patente na imagética social e global desta pandemia. Não pretendo fazer uma análise sociológica ou psicossocial, apenas e despretensiosamente realçar alguns símbolos que criámos, enquanto espécie, para lidar com a aflição e a criatividade enquanto mecanismo de coping.

Em 1º lugar lembro as imagens associadas à saúde pública e às medidas de prevenção contra o vírus como o apelo ao uso de máscara, ao isolamento social e ao distanciamento físico. Estas imagens por sua vez eram acompanhadas de palavras de ordem como por exemplo “Fique em casa. Salve vidas”. E palavras como coronavírus, sars-cov2, covid 19 ou epidemiologia passaram a termos banais na rua como no consultório. Agora, à pergunta, já foste vacinado? segue-se a mais comum, que vacina levaste? E passámos inclusive a diferenciá-las como se fossemos especialistas e entendidos na matéria. Astrazéneca, Pfizer, Moderna, Janssen, Sinovac, por exemplo estão na boca do mundo.

Em 2º lugar, além das imagens e termos alusivos à doença pandémica também surgiram outros símbolos a reiterar a esperança, a solidariedade e o apoio mútuo a uma escala global. Estamos juntos! ou, Vai ficar tudo bem, é a mensagem do arco-íris, símbolo auspicioso e representativo da pandemia trabalhado pelas mãos de muitas pessoas em todo o mundo, através do desenho, da pintura, da fotografia e da edição digital.

Em 3º lugar sublinho a proliferação de imagens multimédia de agradecimento aos profissionais de saúde e a realização de concertos on-line solidários. Muitas e louváveis iniciativas, como aquela criada pelo artista Nathan Wyburns que, a partir de 200 fotografias enviadas por profissionais de saúde realizou uma colagem digital (https://www.facebook.com/100044597763964/videos/347893223315421). E quem não se lembra de vir á rua assistir e participar na homenagem àqueles que se debatiam diariamente na linha da frente através da batida de tachos? Movimento este, em parte semelhante a rituais ancestrais de “espantar” o mau espírito ao som de tambores ou outros instrumentos incluídos em práticas xamânicas.

Em 4º lugar refiro os imensos exemplos daquilo a que chamo de criatividade da superação. Testemunhámos várias dinâmicas criativas como forma de ultrapassar estados emocionais de ansiedade, depressão e de medo. As redes sociais e os media em geral deram-nos a conhecer vários modos de gestão da vivência pandémica. Através da dança, do canto, da expressão plástica, da escrita, do humor ou da expressão dramática, as pessoas recorreram à sua criatividade individual para superar o desafio do confinamento e manter o seu equilíbrio psicológico. E verificamos como, mais uma vez na história da humanidade, a criatividade esteve ao serviço da resiliência e da manutenção do bem-estar possível. Se a criatividade é considerada um recurso interno de reparação emocional, a verdade é que também é uma ferramenta para repensar a realidade e reorganizar o nosso mundo interior. E foi neste contexto histórico, como noutros, que a humanidade se socorreu mais uma vez da criatividade para elaborar estratégias de sobrevivência ao caos e á perda, bem como, de resgate da esperança no futuro.

 Em 5º lugar importa também reconhecer a importância das tecnologias de informação e comunicação. Em maio do ano passado foi publicada uma notícia que nos deu conta que a plataforma Zoom no espaço de meses passou de 10 milhões para 300 milhões de utilizadores. Esta empresa avaliada em 50 mil milhões de dólares na altura equivalia a 7 companhias de aviação. Outras plataformas de comunicação também dispararam o seu número de clientes em virtude do tele-trabalho e do tele-ensino. Sinais de um tempo em mutação designado globalmente como o novo normal.

Por fim, e subjacente a todas as outras referências, está a saúde mental enquanto fator primordial e condicionante da qualidade da nossa saúde pública.

Há pouco mais de um ano a psicoterapia on-line tornou-se uma presença assídua na vida profissional de muitos terapeutas e clientes/pacientes. Mudança de paradigma? Talvez. E muito se discutiu esta forma de fazer terapia em vários fóruns, webinars e conferências on-line. Este modo de acompanhamento e tratamento psicológico foi acolhido com resistência e ceticismo por muitos técnicos e utentes.  Alguns contestaram o modelo e até a sua validação terapêutica na medida em que, pelo facto de ser on-line, implicava pôr em causa alguns dos princípios orientadores da teoria e técnica da psicoterapia. Outros, que em tempos silenciaram o facto de fazerem atendimentos à distância, com receio de serem julgados pelos seus pares e supervisores, agora, vieram assumir que já praticavam psicoterapia on-line há algum tempo. Na experiência destes psicoterapeutas, a clínica on-line praticada pré-pandemia por mútuo consentimento e opção, respeitava, integrava e nalguns casos até reforçava os fatores comuns de cura como a empatia, a aliança terapêutica, o espaço seguro e contentor, entre outros.   

A Arte-Psicoterapia na era Digital passa a ON-LINE. Passa a SER ON-LINE.

O que é isto de SER ON-LINE? Quem é este SER? Como opera? Que características tem? Que princípios norteiam esta forma particular de realizar a psicoterapia? Quais são os seus constituintes identitários?

NOVA MORADA

Não é nem no espaço do psicoterapeuta, nem com as cadeiras do psicoterapeuta, nem com os materiais do arte-psicoterapeuta, nem na mesma geografia. A morada é outra!

A Arte-Psicoterapia On-line encontra-se entre 2 espaços:

Espaço Mediado por 2 computadores (ou mais) o do psicoterapeuta e o do paciente (ou pacientes). O AQUI- habitualmente o espaço do terapeuta- passa a um AQUI e ALI- o espaço do cliente. A terapia encontra-se no éter e entre 2 espaços físicos. Onde nos encontramos é o teu espaço e o meu espaço, mas não é o teu nem o meu. É um NOSSO ESPAÇO entre 2 écrans.

Espaço Partilhado: Tanto psicoterapeuta como paciente partilham um espaço seu e colocam-no ao serviço da arte-psicoterapia contribuindo para que este setting on-line adquira um valor objetivo, subjetivo e intersubjetivo na experiência.

E neste espaço de encontro entre os 2 écrans existem camaras a filmar cada um dos intervenientes. O espaço (e os seus intervenientes) é Filmado (podendo ou não ser gravado). A câmara/webcam passa a ter um destaque especial. Inclusive é motivo de análise se está ou não ligada, se tem um fundo, que tipo de fundo foi escolhido. Abre-se aqui uma porta voyeurística muito interessante. E o espaço é Mutável: quarto, escritório, cozinha, carro, …

PRIVACIDADE

Isto coloca-nos aqui uma questão de privacidade, e não querendo entrar em detalhe neste âmbito, realço aqui 4 aspetos que mais interferiram com as sessões on-line.

  • A presença de terceiros (pessoas/animais) no espaço terapêutico (testemunhas);
  • A eventualidade de outras pessoas poderem escutar a sessão e evocar traços paranoides;
  • Situações em que o paciente/cliente se apresentava na sessão a comer, a fumar ou a realizar tarefas em simultâneo no computador;
  • E também a iminência de uma interrupção a qualquer momento ou distração causada pelo ambiente (sobresalto/corte abrupto/ alguém ficar pendurado).

Nalguns casos surge o agravamento de estados de ansiedade, fobias e traços paranoides.

ESPELHO

 

 

Um elemento único na Psicoterapia On-line, é o facto do terapeuta e do paciente se poderem observar em ação, em tempo real. Verem-se ao espelho. Esta visão autoscópica passa a integrar a equação psicoterapêutica, evocando um estímulo narcísico que inicialmente perturba a consulta. Persiste ou posteriormente vem a incorporar-se na sessão e consequentemente a diluir-se. No entanto tem implicações transferenciais e contra-transfererenciais.

 

PROCESSO CRIATIVO

Encontramos MEDIADORES – materiais artísticos – que não são do arte-psicoterapeuta como habitualmente,

  • São do paciente ou do mundo do paciente (filhos ou lá de casa);
  • São adquiridos previamente ou entre sessões pelo cliente;
  • Podendo haver por um lado uma maior limitação na diversidade e disponibilidade dos materiais, por outro também pode haver uma maior criatividade na utilização de materiais caseiros ou de “cozinhar” os seus próprios materiais;
  • Imagens podem ser exibidas na tela/ecrã manualmente ou digitalizadas e compartilhadas através de redes sociais.

Surgem também Imagens digitais:

  • Apropriadas da internet ou fotografias no telefone/smartfone que são submetidas a edição. Não há a particularidade de tocar na imagem enquanto ela é produzida nem os cheiros dos materiais ou outro tipo de manuseamento plástico. A manipulação da imagem é feita através de rato/teclado;
  • Criadas de raíz através de software próprio, o qual lhes confere um look & feel específicos, uma aparência etérea, pertencente ao mundo digital e não físico.
  • Maior facilidade na partilha destas imagens e na elaboração de composições mais complexas (colagens digitais).

 

 

TÉCNICA

Arte-Psicoterapia em Grupo: Quadratura do Círculo (tela em mosaico)

  • Mais elementos distrativos perturbando a atenção flutuante;
  • Moldura corporal é redimensionada;
  • Suporte emocional passa a ter outro protocolo, nomeadamente na técnica a adoptar para evitar passagens ao acto;
  • Intimidade gera-se num novo ecossistema.

 

 

 

 

Arte-Psicoterapeuta e Paciente numa caminhada de ADAPTAÇÃO. Há uma aprendizagem de uma nova linguagem, uma nova forma de estar em processo terapêutico, de ultrapassar resistências “analógicas”, de estabelecer um modelo diferenciado de relação e comunicação. Enfim, há que ser criativo sem perder o humor. Até porque permite-nos assistir a cenas no mínimo curiosas ou trágico-cómicas para muitos mestres das escolas de psicoterapia.

 

Veja o video: https://youtu.be/rs-rGuGSjf8

https://www.facebook.com/paulapriorguerrinha

 

Maria Paula Guerrinha
Arte-Psicoterapeuta

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