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a querer escrever umas linhas sobre a Mãe. Uau! Tema gigante. Que facilmente descamba em clichés e frases feitas. E inevitavelmente entramos no reino das lamechas ou do ressentimento. Mães há muitas, boas, más e assim assim.

Prefiro a este propósito recorrer a Donald Winnicott que nos anos 50 e 60 tanto sublinhou a importância de uma “mãe suficientemente boa” para o desenvolvimento emocional da criança. Preconiza a imagem do bebé no colo da mãe. Um ser humano frágil e vulnerável que precisa de outro ser humano para continuar a existir. É necessária uma relação fusional, simbiótica, e posteriormente de amadurecimento pessoal entre mãe e bebe. 

Aquilo que um bebé precisa, desde o início, ou seja pouco antes do nascimento e logo depois, é algo que tem pouco, se é que tem alguma coisa a ver com inteligência. Parece-me razoavelmente óbvio que aquilo de que o bebe necessita é antes de mais nada da capacidade da mãe de dispensar atenção plena. Na verdade, o êxito no cuidado infantil depende da “devoção”, e não de instinto ou conhecimento intelectual (Winnicott 1964).

Nos primeiros meses de vida do bebé a mãe tem 3 funções principais, refere este analista: 

  • Sustentação (holding): Forma como o bebé é sustentado no colo pela sua mãe. É uma experiência física e uma vivência simbólica que significa para o bebé a firmeza com que é amado e desejado como filho.
  • Manejo (handling): “É a experiência de entrar em contacto com as diversas partes do corpo através das mãos cuidadosas da mãe.”
  • Apresentação de objectos ou Realização (object presenting): A mãe propicia ao seu bebé o encontro com a realidade, com os objectos e emoções e com outras pessoas. Desta fase há-de brotar o impulso do nosso ato criativo para mais tarde criarmos a nossa própria realidade.

Uma mãe suficientemente boa fornece o necessário ao seu bebé e não mais do que isso. Identifica-se com ele sem perder a sua individualidade como mulher. Conhecer esta mãe implica concebê-la como mulher respeitada pela cultura, reconhecida como dona do seu corpo e da sua liberdade, capaz de viver o paradoxo de amar com devoção e alteridade. 

A psicanalista Annick Le Guen (2001), pergunta: O que transmitem as mães às suas filhas? E responde: A identidade, a sexualidade, a feminilidade, o reconhecimento e a complementaridade do outro sexo, o desejo de maternidade, a ternura, o erotismo, mas também a sua ambivalência e a sua violência, porque mães de vida são também mães de morte. Transmitem as suas histórias singulares e aceitam ou recusam as suas filhas. 

Winnicott fala de dezoito razões pelas quais uma mãe pode odiar o seu bebé. Vou deixar esta matéria para outra reflexão!

Ser mãe de filhos é abraçar um desígnio de amor, tão enorme que supera o nosso próprio amor. É visceral. E todos os dias as mães dão um pouco da sua vida aos seus filhos. Mães e filhos entrelaçam-se durante horas em pensamentos, memórias e afetos. O vínculo entre os dois, resolvido ou menos resolvido, é essencial à nossa saúde. Mães cuidam e contribuem para a progressão dos filhos, e os filhos também contribuem para a evolução das mães, na alegria e na dor. Desafiam-nas e levam-nas ao limite. É assim. É lei. Não há mãe sem filho. 

Somos todos filhos da mãe!

Mas eu também sou mãe, e assim fui compreendendo contigo os contornos desta grande missão, quase impossível. Estivemos alguma vez preparadas para sermos mães? Em geral, talvez sim, em determinados momentos, nem por isso. 

Os filhos trazem um mistério, um brilho no olhar, uma transcendência que nos perpassa o coração. Uma pessoa gerada em nós e por nós. Um acto criativo animado de energia de linhagem humana. As nossas crias, não é? O seu cheiro, o seu choro, o seu jeito. Não somos nós mas também somos nós.

O que é isto de se ser mãe? Uau! Tema gigante. Temos muitos livros e teses de doutoramento sobre este assunto. As redes sociais vão inundar-se de publicações: textos, vídeos, fotografias, posts, podcasts, blogs,cartoons, e bla bla bla, sobre o tema MÃE.

Irei deliciar-me com a poesia e a prosa que muitos escreverão. E lembrar-me-ei da minha mãe como faço todos os dias. Este é apenas mais um dia em que penso nela. 

Mamã eu quero, dizer-te que penso em ti todos os dias e agradecer-te por todas aquelas horas de preocupação comigo. Importas-te, interessas-te, cuidas, seguras, logo amas. Sentir o amor de uma mãe é nutrição de alta qualidade. É o colostro que nos sustenta e alimenta o nosso desenvolvimento.

Mamã eu quero, dizer-te que admiro a tua coragem quando enfrentaste a aventura de criares uma família num país estrangeiro. Loucos anos 60. Leiria, Paris e Montreal. Vingaste. Adaptaste-te e navegaste a corrente da vida, protegendo os teus amores e sacrificando alguns sonhos. A doença veio mas progressivamente vieste a encontrar o equilíbrio. E hoje sei que é contigo que aprendo a lutar. 

Mamã eu quero, que saibas que estás sempre perto quando estás longe e hoje realço aqueles dias em que apareces com uma roupinha nova e lhe dás um toque fashion.

Mamã eu quero, partilhar contigo o quanto os teus olhos brilham com a nossa felicidade ou um simples éclair de café.
E,
mamã eu quero, gritar de gratidão por teres feito o melhor que podias e sabias e por ser esta a lição que trago comigo todos os dias enquanto SOU MÃE. 

Assim, aprendo também a transmitir aos meus, que a vida é digna de ser vivida.

Maria Paula Guerrinha
Arte-Psicoterapeuta

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